
Ainda olhou para trás de soslaio com esperança de ver a
Wonder Woman pegar no seu bilhete, mas ela continuava com os olhos vidrados no infinito, fumando sensualmente o seu cigarro.
Ele seguiu o seu caminho, agora em direcção a casa, cabisbaixo e sonolento.
Ligou o chuveiro no máximo e a água batia-lhe com força na nuca. Percorriam-no todo o tipo de pensamentos, dos quais ele tentava livrar-se há anos. Nunca se perdoaria pela morte da filha...tão pequena e indefesa, deixada negligentemente sozinha na piscina enquanto ele gesticulava nervosamente ao telefone com um cliente. A cara de pânico do seu corpo flutuante assombrava-o todas as noites...e desde esse dia que passara a viver dos juros do seu dinheiro aplicado, dedicando-se à vida, ou àquilo que lhe sobrara dela.
A mulher abandonou-o. Família já não tinha e desconhecia o conceito de um amigo, pois evitara qualquer tipo de contacto social desde então.
Preparou um copo cheio de whiskey e ligou o rádio. Sentou-se no sofá e adormeceu com a toalha enrolada à cintura. Acordou ao som de
Sting\ e foi aí que tocou o telefone. Do outro lado ouvia-se uma respiração calmante e uma voz feminina suspirou qualquer coisa. Ele paralisou. Apenas aí se apercebeu que talvez ainda não estivesse pronto para voltar a sair. Ela apercebeu-se da sua hesitação e, mais uma vez sensualmente, disse: "Espero-te às 21 horas no Tulipa, o café perto da marginal. Ah, sou a Isabel" e desligou. Ele ficou por momentos fixado a olhar para o telefone, depois viu as horas. Eram oito, ainda podia comer qualquer coisa, vestir-se e sair calmamente em direcção ao encontro de Isabel.
Saiu meia hora mais cedo que o previsto e foi caminhando em direcção à praia. Quando chegou pôde observá-la ao longe, sentada numa esprigaçadeira, com o cabelo ondulando ao sabor da brisa. Vestia um conjunto pérola de linho e os seus pés estavam frescamente enterrados na areia.
Encheu o peito de coragem e dirigiu-se a ela. Isabel baixou os óculos de sol, sorriu com aqueles lábios vermelho-chamativo e afirmou: "Sempre vieste! Começava a recear que isso não acontecesse...". Ele esbocejou um sorriso e sentou-se timidamente ao lado dela.
Chamo-me Gustavo, disse passados alguns minutos de um silêncio agradável de contemplação. Ela pegou-lhe na mão, cheirou-a e encostou-a na sua face, fazendo-o sentir a pele de seda. Ele arrepiou-se e retirou rapidamente a mão, envergonhado. Ela desculpou-se, dizendo que a presença dele a preenchia, a deixava inerte e moribunda. Apenas queria perceber porquê...
Ele retirou um isqueiro do bolso e acendeu-lhe o cigarro que ela tinha colocado na boca... Ficaram horas a olhar o mar, fumando, calados...
[continua]